
Soube-se hoje que o projecto que a Bragaparques apresentou para recuperação da Praça de Lisboa já obteve aprovação definitiva por parte do Igespar, podendo assim avançar a requalificação deste espaço, cedido à empresa pela Câmara do Porto por um prazo de 50 anos.
PúblicoO projecto do Arq. Pedro Balonas prevê que a praça venha a ter uma cobertura ondulada de betão e vidro destinada à prática de "actividade lúdicas" (de certa forma para tentar chamar os skaters, praticantes de bmx, e outros, à semelhança do que acontece na praça da Casa da Música). Prevê também que as fachadas sejam revestidas a vidro de forma a permitir uma maior visibilidade a partir do exterior.
Sabe-se que será cedida uma parte da nova praça à Federação Académica do Porto para que lá possa, finalmente, nascer o Pólo Zero, tão reclamado pelos estudantes, e que será gerido por esta associação. Também a Byblos prevê criar aqui a maior livraria do país, que será a loja âncora deste projecto, situado mesmo em frente à histórica livraria Lello. No topo será ainda construído um restaurante panorâmico voltado em arco para os Clérigos e para a Rua dos Carmelitas, e que contará também com uma esplanada no novo recinto.
Muito foi discutido acerca do concurso público que a Câmara promoveu para cedência do direito de superfície da praça. O consórcio liderado pela Bragaparques foi o único que se mostrou interessado, o que dificultou o trabalho da Câmara ao nível das negociações dos direitos e deveres do concessionário. O próprio vereador do Urbanismo chegou a dizer que esta proposta não reunia as características previstas pela Câmara e que, sendo o caso de concorrente único, esta teria maior dificuldade em fazer valer as suas imposições junto da empresa. Ainda assim, a proposta apresentada cumpria as condições impostas pelo concurso e, depois de duras negociações, lá se chegou a um acordo razoável para ambas as partes (ainda que não o melhor para a Câmara a nível financeiro). Aprovado o projecto de arquitectura pelo Igespar, tudo aponta para que possam finalmente avançar as obras no local, previstas para o ínicio de 2009
Sobre o projecto:
Quanto à arquitectura, a ideia do pavimento ondulado não será nova na cidade, já que, a par da nova praça, existirão com as mesmas características, na altura da sua conclusão, mais dois espaços relativamente próximos: a praça envolvente à Casa da Música e a praça em frente ao Centro Comercial Itália (na rua Júlio Dinis, em adiantado estado de obra). Refere-se na proposta que a praça será uma continuidade natural do Jardim da Cordoaria; porém, pelas imagens do projecto, não se prevê uma única árvore para o local ou qualquer outro tipo de vegetação. Numa fase inicial ainda se pôs a hipótese de espalhar oliveiras pelo espaço em homenagem ao antigo aspecto e nome que aquela zona da cidade tinha, conhecida como Campo do Olival (posteriormente Praça do Anjo e finalmente Praça de Lisboa), mas essa ideia foi prontamente abandonada.
Espera-se que a nova praça seja um ponto de passagem diário de milhares de pessoas, visto estar situada num local de encontro de três importantes fluxos de movimento. São eles provenientes: da Praça da Liberdade/S. Bento através da Rua dos Clérigos; da zona envolvente ao Jardim da Cordoaria, com a Reitoria da UP, o ICBAS e o Hospital de S. António como principais "ímanes" de atracção de população; da parte "alta" da cidade, através das ruas de José Falcão, Galeria de Paris, Cândido dos Reis e Conde de Vizela. Isto apenas durante o dia, já que à noite altera-se esta dinâmica e os principais pólos de actividade concentram-se no Piolho e bares envolventes, na Rua Galeria de Paris e Cândido dos Reis, na Rua de Cedofeita e nas ruas próximas a esta.
A nova praça tem de se estabelecer como o ponto de encontro desta dinâmica para que (principalmente à noite) não corra o risco de voltar a ser rotulada como um espaço "a evitar", com todos os problemas de segurança e degradação física que daí decorrem. O desnível da praça em relação às ruas envolventes, principalmente em relação à Rua dos Carmelitas, pode contribuir muito para isto, sobretudo se não forem abertos canais de ligação amplos e arejados entre a cota da rua e a superfície da praça.

(imagens do projecto inicialmente apresentado, ao qual o Igespar impôs ligeiras alterações)Já quanto aos projectos comerciais para aquele sítio, é de louvar a aposta da Byblos na criação da maior livraria do país. Numa zona que concentra grande parte da actividade livreira na cidade, entre alfarrabistas, livrarias temáticas e livrarias técnicas, faz falta uma grande superfície que sirva como porta de entrada e que publicite a dinâmica que a zona tem neste sector particular. A apresentação da zona dos Clérigos como zona especializada no mercado do livro, será muito mais facilmente divulgada ao grande público com um grande investimento como este à cabeça. Criar-se-á mais uma área "demarcada" de comércio na cidade, como acontece com enorme sucesso na zona envolvente à Rua Miguel Bombarda ou na Rua do Almada (no mercado das galerias de arte e do comércio alternativo respectivamente).
Quanto ao Pólo Zero, uma antiga reinvidicação da FAP, espera-se que seja um projecto gerido pela associação estudantil, no mínimo com originalidade (já que ainda ninguém percebeu para o que é que o espaço servirá exactamente). Pretende-se que sirva como o ponto de encontro dos estudantes universitários do Porto, aliando o estudo à diversão, cultura e desporto. Caberá tudo isso neste espaço? Isso é o que a FAP vai decidir, espera-se que, em harmonia com a estratégia que for sendo seguida para a praça (e para a qual o Pólo Zero também contribuirá decisivamente). Uma das apostas que a FAP poderá considerar, será a organização de concertos de bandas não conhecidas do grande público (ou, por exemplo, um festival de bandas de garagem, tal como já acontece em várias faculdades) no espaço da praça que, pela sua fisionomia ondulada é ideal para a realização destes eventos.
Finalmente, a razão do título deste post. Seria um gesto de reconciliação com a história da e com as tradições orais da cidade por parte da Câmara, que o a praça voltasse a ser chamada pelo nome que tinha quando se tornou num dos principais centros de interesse do Porto. A antiga Praça do Anjo que acolheu o imensamente concorrido mercado do Anjo, passou a chamar-se com o nome da capital quando o mercado perdeu a influência que tinha. O nome "de Lisboa" acompanhou-a durante o período de decadêndia do Clerigushopping até aos dias de hoje, em que se apresenta como uma ferida urbanística no coração da cidade.
A mudança do nome poderia ser até uma boa estratégia de marketing, já que a associação que o público faz com a Praça de Lisboa é sobretudo negativa e relacionada com degradação e vandalismo, e com problemas de insegurança e consumo de drogas.
A relembrar o antiga toponímia da praça estava, até à uns tempos, uma estátua do grande escultor José Rodrigues (em baixo). Foi encontrada totalmente destruída, não à muito tempo; era a única coisa digna de se ver na praça. Actualmente, a Praça de Lisboa é simplesmente lixo e destruição, e uma vergonha para a cidade, nada mais.
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